Description: trajetória do grupo Os versos dos Racionais são acompanhados com total reverência, sem o pula-pula ou os passinhos coreografados característicos de shows de outros gêneros musicais. O público vai da histeria completa ao mais puro silêncio, sempre atento ao que os manos têm a dizer. "No começo eu estranhava, achava que eles não estavam curtindo. Depois é que me contaram : Mano, eles prestam atenção na letra" - diz Brown. As músicas do quarteto são bem construídos retratos da periferia desassistida pelas autoridades. "Para entender o que está acontecendo com aquelas pessoas marginalizadas é necessário ouvir os Racionais MC's", professa o senador Eduardo Suplicy, do PT de São Paulo. Em 1997, discursando para protestar contra a impunidade no histórico caso do índio pataxó incendiado em Brasília, o político chegou a ler a letra de "Homem Na Estrada", na Tribuna do Senado. "Foi uma maneira de denunciar a violência contra os mais pobres", explica Suplicy. Os temas podem ser sombrios, mas a popularidade dos Racionais é grande. Lançado pelo Cosa Nostra, selo deles mesmo, o CD Sobrevivendo no Inferno contabilizou 500 mil cópias vendidas só no período de lançamento, sendo o primeiro grande sucesso DE VENDAS do grupo. É um número superior ao dos últimos lançamentos de Raimundos e Charlie Brown Jr., grupos contratados por grandes gravadoras e com execução garantida nas rádios - que atingira, respectivamente, as marcas de 200 mil e 180 mil comercializadas. Eqüivale à soma dos números brasileiros dos lançamentos de Oasis, Rolling Stones e U2 juntos. O próximo passo foi então gravar um clip. O rap escolhido foi "Diário de um Detento", estrelado por Brown e Ice Blue, e durante semanas permaneceu nos primeiros lugares da parada da MTV. A música, uma narrativa claustrofóbica de sete minutos e meio de duração, considerada longa demais para os padrões radiofônicos, teve ótima execução nas principais rádios paulistas e cariocas. Os playboys também não ficam imunes ao grupo. "Eles gostam do que é bom. Carro importado, comida boa. Se curtem a gente é porque somos bons", simplifica Ice Blue. Por conta disso, os Racionais esporadicamente se apresentam para um público de poder aquisitivo maior, em lugares como o Imperator, no Rio de Janeiro. O cachê costuma dobrar ou triplicar nestas ocasiões. "Tem é que pagar mais. Eles não babam pelos grupos de samba? Que paguem o mesmo pela gente.", desafia KLJay. "O boy coloca um CD dos Racionais no seu carro importado e se sente parte da bandidagem." Ser Racionais MC's significa adotar normas bastante próprias. O grupo rejeita álcool e drogas nos camarins: apenas frutas, sanduíches e refrigerantes são bem-vindos. "Pensam que somos muito loucos. já ofereceram drogas várias vezes e teve show que nem água tinha, queriam servir só uísque pra gente", conta Brown A postura anti-droga, expressa em sucessos como "Capítulo 4, Versículo 3" e "Fim de Semana no Parque", é unanimemente aplaudida. As entrevistas à imprensa escrita são poucas e escolhidas a dedo. "Eles têm medo de que as pessoas distorçam suas palavras", socorre Primo Preto, ex-VJ da MTV e amigo dos rappers. O grupo tem suas razões: certa vez foi envolvido pelo jornal paulistano Notícias Populares numa intriga com o Pavilhão 9. "Foi uma invenção da mídia, já fizemos as pazes". Televisão, nem pensa. Momentos antes de uma entrevista coletiva, em dezembro de 1997, eles gentilmente pediram aos repórteres da Globo e do SBT que se retirassem. "Nunca vamos nos apresentar numa emissora que apoiou a ditadura militar. Muito menos no Faustão, comandado por um apresentador que tira dos convidados", diz KLJay. Mano Brown passa seus dias no Jardim da Alvorada, bairro pobre da Zona Sul. É ali que mora com a mãe, Dona Ana Soares Pereira; a mulher, Eliane; e o filho, Kaire Jorge. O sucesso em nada atrapalha sua rotina. Troca idéia com outros manos e dá conselhos para o pessoal. Ele não troca suas raízes por nada deste mundo. "Tem gente que vende 100 mil discos e sai da periferia. Ganha milhões e depois vem aqui distribuir migalhas para o pessoal. Eu fico por aqui e ajudo como posso." A influência do rapper foi vital na construção de um campo de futebol localizado a poucos metros de sua casa. "O índice de violência abaixa quanto se tem lazer", explica ele, com planos de abordar o esporte em uma de suas próximas composições. Como qualquer morador da periferia, Brown está sujeito a ser parado pela polícia. E toma suas precauções. "Nunca ando sozinho. Estou sempre com dois ou três manos". Numa dessas batidas, o carros dos Racionais emparelhou com um ônibus da Gaviões da Fiel. "Eles ficaram tão revoltados que começaram a cantar Homem na Estrada. Daí os policiais deixaram a gente e foram bater nos torcedores do Corinthians". "O nome Mano Brown será famoso como o de Roberto Carlos", prevê KLJay. Ele ainda se chamava Kleber Geraldo Lelis Simões e trabalhava como carregador de malas no Terminal Rodoviário do Tietê(São Paulo) quando, no final dos anos 80, conheceu Brown. Para completar o grupo, chamou o companheiro da Zona Norte Advaldo Pereira Alves, o Edy Rock. Brown recrutou o amigo Paulo Eduardo Salvador, o Ice Blue (o apelido vem de "Nego Blue", música de Jorge Ben. "Ele andava sempre arrumadinho", explica Mano). Logo nos primeiros ensaios, na casa de Edy Rock, KLJay teve a certeza de que havia escolhido o parceiro certo. Os Racionais assinaram contrato com o selo independente Zimbabwe e participaram da coletânea Consciência Black de 1988. Três anos depois, roubaram a cena numa apresentação do Public Enemy em São Paulo. A contragosto dos organizadores, que tentaram barrar a entrada do quarteto, interpretaram "Pânico na Zona Sul" e "Tempos Difíceis", do LP Holocausto Urbano. A trajetória de Mano Brown se assemelha com a de um ídolo seu, o astro de reggae Bob Marley. Ambos são filhos de mãe negra e pai branco (o de Brown foi um italiano que nem viu o rapper nascer) e torcem - no caso do brasileiro, desesperadamente - pelo Santos Futebol Clube. Marley relatou em suas letras o dia-a-dia do gueto de Trenchtown, na Jamaica. mano traduz em versos o que acontecem com sua gente na periferia. "Diário de um Detento" foi uma carta entregue pelo presidiário Jocenir em1996, quando os Racionais foram jogar bola com os presos da Casa de Detenção. o Guina, bandido que encomenda o assassinato de um desafeto em "Tô ouvindo alguém me Chamar", ainda mora no bairro. "Só o nome é fictício, não quero me sujar", ressalva Brown.. Bob Marley comprou uma BMW com a boa leva de dinheiro que ganhou. "São as iniciais de "Bob Marley & Wailers", justificou. Mano Brown tem uma caminhonete GMC, que usa para levar os companheiros nos jogo do Santos. "A gravadora me devia uma grana e me deu esse carro. Não ligo pra marca. Eu antes andava de Opala, mas, de tanto sair com o pessoal, tive problemas com a suspensão do carro". Brown foi muito pobre. "Morei em casa com telhado furado, dava para ver o céu". Hoje tem um apartamento próprio na Cohab. O corpanzil de 1,80 metro e cerca de 90 quilos era cultivado em sessões esporádicas de musculação. "Fazia na academia de um chegado, mas deixei pra lá. Não gostava quando uns camaradas ficavam de frescura no espelho, olhando para os músculos e gemendo". Tem poucos sonhos de consumo. "Quero comprar uma casa para minha mãe. É um sonho dela". O rapper ri quando é chamado de poeta e alertado sobre o carisma que possui. "Às vezes eu não consigo nem dar uns toques para os manos daqui!". Mas o público não pensa desta maneira. Chegou a atacar a polícia com paus e pedras quando os Racionais foram presos no meio de um show no Vale do Anhangabaú em 1994 - os policiais se sentiram ofendidos com os versos de "Homem Na Estrada" e partiram pra cima dos Racionais, no palco. A melhor definição de Brown e dos Racionais acaba saindo da boca de KLJay: